NOTÍCIAS

Usuários dependentes de aparelhos eletrônicos podem sofrer de nomofobia
Claudeci Martins - Da Agência Imprensa Oficial
Hugo Sandes, todos os dias diante do computador: e-mails, notícias e pesquisas

Ao analisar o uso das novas tecnologias, o psicólogo Cristiano Nabuco, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, constata que as pessoas estão cada vez mais dependentes de aparelhos eletrônicos. Diz que a nova conexão com o mundo (que antes eram feita através das janelas das casas) agora passou a ser pelas telas de computador, celular, TV.

As janelas, que no passado eram grandes, estão cada vez menores e as telas, mais dimensionadas. As “janelas virtuais” trazem facilidades e tornaram-se objetos de consumo desejado por adultos e crianças, mas promovem o risco da dependência.

Quando a pessoa sente medo de ficar desconectada ou incomunicável pode estar sofrendo de nomofobia. O nome vem do inglês no mobile, que na tradução literal é medo de estar sem celular. “A pessoa não consegue desprender-se da tecnologia. Deixa o aparelho ligado 24 horas por dia, inclusive quando vai ao banheiro ou até mesmo na hora de dormir”, explica o psicólogo.

No Brasil, há mais de 250 milhões de aparelhos de telefonia móvel, número maior que a população brasileira, estimada em 190 milhões. Considerado distúrbio dos tempos modernos, a nomofobia se junta a outras fobias mais antigas como o medo de altura e de espaços fechados. Os jovens são mais suscetíveis à fobia, mas qualquer pessoa está sujeita à síndrome. Quando o uso excessivo se torna patologia? Para ser caracterizada como nomofobia, a ausência de aparelhos tecnológicos deverá provocar ruptura de cordialidade e de convivência social e trazer prejuízo significante para a pessoa. “Não dá para tirar totalmente o celular da vida de alguém, o importante é usar o bom senso para não se viciar”, salienta Nabuco.

Sempre ligado – Giulia Zanaroli Lemes, 14 anos, diz que dorme com o celular ao lado. “Certa vez esqueci em casa e só não voltei porque tinha prova na escola”. Leva o carregador na bolsa e diz: “Se ficar sem ele parece que estou desligada do mundo”. Sua mãe a adverte dos excessos, mas a garota diz que “acaba viciando” e já atendeu o celular até na sala de aula, mesmo sendo proibido. Edu Martins tem o mesmo hábito de levar o carregador “só para prevenir”. Classifica o aparelho como “um mal necessário por ser útil e conveniente”, e o mantém ligado porque “vai que alguém liga”. Edu chegou a interromper entrevista de emprego para atendê-lo. Diz conseguir ficar sem usá-lo, mas se sente “chateado” quando esquece em casa. Ao ficar impossibilitado de se comunicar ou de se conectar, o nomofóbico sente ansiedade, pânico, impotência e angústia. Pode apresentar sintomas físicos como taquicardia, falta de ar, suores frios e dores de cabeça. Embora o nome da síndrome se refira ao celular, a nomofobia diz respeito a qualquer aparato tecnológico que deixe a pessoa conectada com o mundo, como computadores e notebooks.

De olho na tela – Há três anos, Nilce Rodrigues, 49, não fica um dia sem entrar na internet. Durante a semana, passa pelo menos oito horas plugada. Uma cirurgia malfeita na face, em 2007, levou-a a se conectar na rede virtual para se informar, procurar ajuda e conforto. Hoje tem um blog onde escreve sua história e até criou a página Vítimas de erro médico. Diz ter aprendido muita coisa e é “melhor ficar no computador do que fazer coisa ruim por aí”.

A professora aposentada Eunice Previ Melchior, 70 anos, usa celular e computador somente em casos de emergências. “O uso constante deixa a pessoa presa”. Eunice diz que prefere sair, bater papo e conversar pessoalmente por ser “importante, humano”.

“Para grande parte das pessoas é difícil não ter um desses aparelhos”, argumenta o psicólogo Amaury Santos Araujo. “São ferramentas fundamentais, mas eu consigo viver sem celular e sem computador. Sobre a nomofobia comenta que “qualquer distúrbio que leve à compulsão é desfavorável, ruim, é doença”. Com 8 anos, E.M.S.S passa três horas por dia brincando com joguinhos eletrônicos e desenhos no posto do Acessinha do Parque da Juventude. A garota só não fica mais tempo por não ter o equipamento em casa. Quando não pode ir ao Acessinha, costuma brincar de boneca.

Fernando Aparecido Rodrigues usa computador todos os dias e só sai da frente da tela para almoçar. “Sou viciado, não dá para ficar sem mexer. Só não uso mais porque não tenho um em casa”.
Nair Abílio Miksas, 71, diz que o computador faz parte da vida,é necessário. “Se deixar fico o dia todo conectada, mas procuro vencer o vício”. Considera um “problema psicológico” quem usa em excesso.

Conexão diária – Hugo Jorge Bezerra Sandes, consultor imobiliário, senta-se em frente ao computador todos os dias para checar e-mails, ler jornais e pesquisar. Fica de duas a cinco horas por dia conectado, mas afirma que não é viciado. “O uso excessivo interfere na saúde psicológica”. Quando não pode acessar, fica tranquilo, mas sente falta.

Oscar Rodrigues dos Santos Filho, consultor de vendas, conversa com pessoas nas redes sociais para aprimorar o inglês e o italiano. Troca informações com pelo menos seis internautas diariamente e mantém cadastro com quase 300 amigos virtuais. Passa várias horas por dia conectado, mas diz não ficar “neurótico se não puder usar o computador”.

Sinais de alerta

- Abandonar tudo o que faz para atender o celular.
-Nunca deixar o aparelho sem carga na bateria.
-Não carregar o celular na bolsa, bolso ou similares; preferir levá-lo
na mão para poder atender imediatamente.
- Interromper até relação sexual para atender o celular.
-Nunca esquecer o celular em casa; quando isso acontece, voltar
de onde está para buscá-lo.
- Sentir-se mal quando acaba a bateria, quando perde o aparelho ou pensa que o perdeu.
índice de notícias  
retorna